Quando elaboramos pesquisas, uma das decisões mais críticas reside na formulação das perguntas. O modo como perguntamos define não apenas a qualidade das respostas, mas também o tipo de realidade que conseguimos acessar.
Devemos investigar o que as pessoas pensam ou o que elas sentem?
Essa reflexão emerge tanto da leitura de Yuval Noah Harari quanto da minha experiência prática na construção, condução e interpretação de pesquisas aplicadas a contextos organizacionais, sociais e de mercado. Em especial, suas análises sobre democracia e livre-arbítrio oferecem provocações relevantes para quem trabalha com surveys, diagnósticos e processos decisórios mediados por dados.
Harari nos lembra que eleições e referendos não são exercícios de racionalidade pura. São, sobretudo, eventos profundamente emocionais, mobilizando medos, aspirações, esperanças e identidades. A decisão política, nesse sentido, raramente nasce de um cálculo lógico estruturado; ela emerge de percepções subjetivas e sentimentos compartilhados.
O argumento central é instigante: se as escolhas coletivas fossem baseadas exclusivamente em racionalidade técnica, não faria sentido conceder direitos iguais de voto a todos. Afinal, nem todos possuem o mesmo nível de informação, formação ou capacidade analítica. No entanto, a democracia se sustenta justamente na premissa oposta — a de que os sentimentos humanos são igualmente legítimos, pois expressam o livre-arbítrio que fundamenta a autoridade política.
Não se trata de reduzir o livre-arbítrio aos sentimentos, mas de reconhecer que, na prática social e política, eles são sua principal forma de expressão.
Ao transportar esse princípio para o campo das pesquisas, emerge uma constatação relevante: decisões e opiniões raramente são fruto apenas de análises racionais. Com frequência, são orientadas por emoções que, posteriormente, são racionalizadas. Ignorar essa dimensão é limitar a compreensão do comportamento humano.
Perguntas que exploram sentimentos, em vez de apenas julgamentos cognitivos, tendem a revelar camadas mais profundas de motivação, vínculo e experiência.
Por exemplo, em vez de perguntar:
“Qual é a sua opinião sobre o produto X?”
pode-se perguntar:
“Como você se sente ao usar o produto X?”
A primeira busca um posicionamento racional; a segunda acessa emoções associadas à vivência concreta — conforto, segurança, frustração, entusiasmo — muitas vezes mais representativas da decisão real.
Outro exemplo seria substituir:
“Quais fatores influenciam sua decisão de compra?”
por:
“O que te motiva a escolher este produto em relação a esse outro?”
Aqui, o foco desloca-se para sentimentos subjacentes como confiança, identificação, familiaridade ou expectativa de valor.
Essa abordagem não implica desprezar a lógica. Pensamento e sentimento coexistem e se retroalimentam. No entanto, os sentimentos frequentemente orientam aquilo que as pessoas passam a considerar uma decisão “racional”. Ao compreender essa dinâmica, ampliamos nossa capacidade de construir estratégias, produtos e narrativas mais alinhadas às reais necessidades e desejos do público.
Parafraseando Harari, poderíamos dizer que as respostas mais reveladoras não nascem apenas da cabeça, mas daquilo que as pessoas sentem como verdadeiro. Uma pergunta que se conecta com os sentimentos humanos tem maior potencial de capturar a complexidade da experiência vivida — e, consequentemente, de gerar dados mais autênticos e úteis.
Leitura complementar (trechos adaptados)
Os argumentos acima dialogam diretamente com reflexões apresentadas em 21 Lições para o Século XXI, de Yuval Noah Harari, especialmente no capítulo dedicado à liberdade e ao impacto do Big Data sobre o livre-arbítrio.
Harari sustenta que a narrativa liberal moderna atribui autoridade última às escolhas individuais, expressas por sentimentos, desejos e preferências. É essa lógica que fundamenta tanto o princípio democrático do voto quanto a noção de que “o cliente sempre tem razão” no mercado.
Referendos e eleições, como demonstrado no caso do Brexit, não perguntam essencialmente o que pensamos, mas o que sentimos. Se fossem decisões puramente racionais, não haveria justificativa para a igualdade do voto. A democracia pressupõe que, embora as pessoas sejam desiguais em conhecimento ou inteligência, são igualmente livres — e, portanto, seus sentimentos têm o mesmo peso político.
Para aprofundar a reflexão
(referências convergentes e divergentes)
Perspectivas convergentes
- DAMÁSIO, António. O Erro de Descartes – Emoção como base da razão e da decisão.
- KAHNEMAN, Daniel. Thinking, Fast and Slow – Predominância do pensamento intuitivo (Sistema 1) nas escolhas humanas.
- HAIDT, Jonathan. The Righteous Mind – Moralidade e decisões moldadas por intuições emocionais.
Perspectivas divergentes
- HARRIS, Sam. Free Will – Questionamento radical da existência do livre-arbítrio.
- Abordagens neurodeterministas e comportamentais – Decisão como resposta a estímulos e padrões neurológicos previsíveis.
- Modelos algorítmicos de Big Data – Predição de comportamento a partir de dados, reduzindo a centralidade da escolha consciente.




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