Governança protege empresas do improviso… mas não elimina conflitos.

Governança protege empresas do improviso… mas não elimina conflitos.

Empresas familiares convivem com conflitos recorrentes entre familiares envolvidos na gestão, na sociedade empresarial e nas decisões do negócio. Esses conflitos raramente se apresentam de forma direta ou objetiva. Costumam emergir em temas aparentemente menores — uma contratação, uma remuneração, uma decisão operacional — e passam a consumir tempo, energia e atenção de maneira desproporcional à complexidade do tema.

Aqui, o conflito deixa de ser um problema isolado e passa a funcionar como um sinal.

Na prática, o conflito quase nunca é a causa central do problema decisório. Ele atua como sintoma: um gatilho que reativa disputas históricas, diferenças não acolhidas ou mal tratadas, e tensões que nunca encontraram um lugar legítimo para serem elaboradas. Por isso, retornam.

Quando o conflito é observado de perto, percebe-se que decisões aparentemente simples se tornam complexas e intermináveis. O verdadeiro desafio não reside na discussão técnica do tema, mas nas múltiplas camadas de identidade, emoções e poder que o atravessam. Em empresas de irmãos, a convivência física intensa costuma adensar relações conflituosas que transbordam para a geração seguinte. Essa geração seguinte, que dá origem à chamada empresa de primos, herda conflitos ocultos que contribuíram para o distanciamento físico e, sobretudo, relacional — empobrecendo e diluindo a coesão familiar. Em ambos os casos, a ausência de instâncias legítimas para tratar diferenças agrava o quadro.

O problema se aprofunda quando a organização confunde papel e afeto. Pais e mães passam a decidir como provedores, protetores ou guardiões da família — e não como acionistas ou líderes institucionais. A igualdade é invocada para negar a equidade; a sucessão é tratada como prova de sofrimento, e não como processo estruturado de formação e desenvolvimento de competências. Nesse contexto, o cuidado pode atravessar um ponto de inflexão: quando a decisão deixa de ser construída a partir de escuta sistêmica e passa a ser imposta por convicções individuais, o cuidado se transforma em captura do sistema.

Governança começa a fazer sentido exatamente nesse limite.

Essa captura se manifesta na dissociação entre poder formal e poder real. Colegiados passam a operar de modo meramente ritualístico; gestores ocupam posições figurativas; decisões são tomadas previamente às reuniões. A estrutura institucional existe, mas a legitimidade decisória não. Para preservar equilíbrios afetivos, instala-se a chamada dívida simbólica: mecanismos de compensação emocional substituem critérios institucionais. A proteção pode recair sobre qualquer familiar cuja frustração ameace o equilíbrio do sistema — independentemente da posição ocupada. Cargos e silêncios passam a preservar vínculos afetivos em detrimento do processo decisório.

O silêncio, por sua vez, não é apenas uma escolha tática. É herança cultural intergeracional. Para os tradicionalistas, silêncio foi valor e obediência; para os boomers, respeito; para a geração X, pragmatismo; para os millennials (Y), algo engolido e questionado; para a Gen-Z, algo a ser recusado. O que foi aprendido como virtude converte-se em padrão organizacional, dificultando a nomeação do poder real e a convivência legítima com opiniões contraditórias, sem o risco de que isso seja visto com deslealdade.

Sem diálogo, não há governança efetiva.

Sem capacidade de nomear papéis, poderes e responsabilidades, não há governança possível.

É nesse ambiente que o improviso se consolida como padrão oculto. Decisões críticas passam a ser tratadas sem critério normativo estável. A sucessão vira evento — tabu maior quando envolve o fundador — e não processo. A remuneração transforma-se numa “fauna” casuística de puxadinhos, com camadas misturadas e pouco compreendidas. Investimentos são conduzidos por fé e redes informais; capital aportado carece de critérios claros de retorno e acompanhamento. Conflitos societários confundem-se com conflitos familiares: irmãos não se veem como sócios; a monocracia histórica se replica e resiste.

Os custos dessa dinâmica são conhecidos — ainda que muitas vezes normalizados. Há corrosão emocional da confiança e da coesão; custo estratégico, com paralisia decisória e vieses periféricos; impacto financeiro, com oportunidades perdidas e ineficiências; e custo reputacional, quando a marca não alcança a estatura simbólica do fundador. Ele permanece blindado como referência; a organização perde protagonismo, falando baixo para dentro e para fora.

Por que isso persiste? Não se trata de tolerância consciente. Trata-se de uma opacidade estrutural combinada ao medo do desconhecido. O sucesso passado legitima a informalidade; o sistema aprisiona. Quem está dentro raramente percebe a alternativa — e, quando percebe, teme executá-la.

Governança, portanto, não é promessa de harmonia. Não elimina o conflito. Ela cria instâncias, critérios e ritos capazes de acolher e tratar diferenças, o contraditório e verdades coexistentes. Para funcionar, exige algo além da arquitetura formal: vontade política e simbólica dos atuais detentores do poder. Essa liderança é a cola do sistema; sem ela, os ingredientes não aderem.

O grande salto ocorre quando a família aceita que o conflito não será resolvido no almoço de domingo. É o momento do click. O conflito não desaparece; muda de qualidade. Ele perde centralidade à medida que a compreensão se estabelece — em tempos distintos, para pessoas distintas. Nem todos saltam. Nem todos compreendem ao mesmo tempo. Essa é a complexidade do processo.

Empresas familiares não entram em risco por causa do conflito. Entram em risco quando não permitem que a geração seguinte participe daquilo que está sendo decidido por ela. Fundadores se relacionam com suas empresas como com um filho ou uma filha. Podem estar mais distantes, mas permanecem atentos — olhando, cuidando, acompanhando e apoiando. Entre a paixão de acompanhar e a sapiência de compreender o novo papel, nasce a governança.

Governança protege empresas familiares do improviso.
O improviso pode ter sustentado o passado – o futuro exige governança.

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Elton Mattos

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